Bendito fruto – Arrasada pela vassoura-de-bruxa, lavoura baiana sai do vermelho com genética, manejo e trabalho

Que o fungo causador dessa doença insidiosa não se perca pelo nome (Crinipellis perniciosa) e, sim, pelas medidas adotadas pelos produtores rurais para combatê-lo. Originária da Amazônia, onde, devido à condições climáticas específicas (meses de chuvas torrenciais alternados com períodos de seca ou baixa pluviosidade), não apresenta a virulência que desenvolveu na Bahia, a vassoura-de-bruxa fincou suas unhas no estado em 1989, no município de Camacã, ao sul de Itabuna, trazida por algum caminhoneiro ou fazendeiro desavisado.

Não há como saber como se deu a migração. Ali, a praga encontrou condições ideais de multiplicação (índice de umidade relativa do ar bastante alto e chuvas constantes, distribuídas uniformemente ao longo do ano) e se disseminou rapidamente pela região, arrasando a lavoura cacaueira e empobrecendo a população. Milhares de produtores rurais faliram.

O agricultor Antônio Pereira Santos, o Ferreirinha (herdou o apelido de um amigo), acha que a praga pode ser sinal do fim dos tempos, assim como o são, em sua opinião, a escalada da violência, o aumento no consumo de drogas, as guerras, a miséria crescente, a ociosidade, a desagregação familiar e as doenças.

O fungo não só ataca o cacaueiro, enfraquecendo-o, mas também destrói os poucos frutos ainda produzidos pela planta já debilitada, reduzindo ainda mais a sua produtividade. Deixa os galhos secos, necrosados. Pendentes, lembram vassouras velhas.

Dono da fazenda Cordilheira, de 46 hectares, no município de Uruçuca, e emérito conhecedor da Bíblia, ele acha que a devastação nas plantações e a subseqüente depressão econômica na zona cacaueira baiana poderiam ter causado menos estragos se o homem desse mais atenção às demandas da terra, plantas, bichos e, principalmente, às de seu semelhante.

Globo Rural/Globo Rural

Antônio Santos, citando uma frase bíblica: ‘comerás o pão com o suor do teu rosto’

Diz-se, na Bahia, que cacau é lavoura santa. Sempre foi vista como cultura de trato fácil, custo reduzido e rentabilidade garantida, à sombra da qual a região e o próprio estado se desenvolveram. Cultura perene, ajudou a desbravar o interior, a construir cidades, a gerar riquezas. Plasmou a identidade histórico-cultural de mais de 90 municípios produtores da zona de influência de Itabuna e Ilhéus, ocupou cerca de 600 mil hectares de área de mata até a chegada da vassoura-de-bruxa, definiu caminhos, ocupação, renda e patrimônio de quase milhões de pessoas.

No entanto, nunca foi uma lavoura ‘profissional’, embora tenha passado por transformações modernizadoras com a criação do Instituto de Cacau da Bahia e da Ceplac – Comissão Executiva do Plano de Recuperação da Lavoura Cacaueira, em meados do século passado. Cultivada sob regime extensivo, a lavoura foi usufruto de proprietários zelosos mas também de produtores acomodados, interessados apenas no lucro imediato. ‘A esperança é fofa’, ensina, querendo dizer que, no campo, quem espera nunca alcança. ‘É preciso trabalhar’, recomenda. Casado com Dona Luiza Honorato, pai de oito filhos, Seu Antonio trabalha de sol a sol nos sete hectares de cacauais clonados que semeou com ajuda do filho, o técnico agrícola Antônio César Santos, e ainda arranja tempo para estudar as escrituras.

Em 2000, os cacauais da Cordilheira renderam apenas 30 arrobas (15 quilos cada). ‘Vimos o fundo do poço’, diz César. Desde então, a família adotou mudas clonais enraizadas em tubetes nas lavouras novas, enxertia para recuperar plantas doentes e adensamento no plantio, de acordo com as recomendações agronômicas da Ceplac e do Instituto Biofábrica de Cacau, criado pelo governo baiano para multiplicar e distribuir material genético tolerante à vassoura, garfos para enxertia, mudas selecionadas de fruteiras tropicais e essências florestais compatíveis com o ecossistema da Mata Atlântica. O cacaueiro precisa de sombreamento constante, característica que ajudou a preservar milhares de hectares de floresta. Vista do alto, a zona cacaueira baiana compõe uma das últimas manchas verdes do estado.


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