Genômica – fabuloso banco de dados

A integração de redes de projetos genoma no Brasil está permitindo a construção de um imenso banco de dados que irá facilitar, progressivamente, estudos de genoma de propriedades diversas em todo o território nacional. Em um futuro próximo, toda pesquisa de genoma contará com um banco de dados tão rico de material que poderá antecipar em anos os resultados das análises, somente com sistemas de busca e compatibilidade disponíveis no arquivo.

O progresso dessa integração ficou evidente durante o primeiro encontro de coordenadores de nove redes de projetos genoma brasileiros, em agosto na Unicamp, que serviu para consolidar as pesquisas já interligadas e organizadas em rede. A maioria direciona os dados de seqüenciamento ao mesmo banco de memória genética, na Bioinformática Central da Unicamp. O acesso aos dados é aberto somente aos grupos consorciados, e através de contratos com empresas de biotecnologia, para explorar e gerar produtos biotecnológicos. Deve demorar muitos anos até que esses conhecimentos sejam de domínio público. Um dos objetivos é despertar o interesse de empresas financiadoras do projeto para garantir direito às patentes.

Sete dessas redes foram escolhidas em abril, pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), para distribuição de recursos de aproximadamente R$ 26 milhões destinados a investimentos em biotecnologia, contemplando diversas áreas. Os governos estaduais também entrarão com expressivas contrapartidas.

Participam das sete redes 48 institutos e 240 cientistas. A oitava rede, do Genoma Brasileiro, integra 25 laboratórios espalhados pelo Brasil e envolve 160 pesquisadores, ao custo de R$ 8 milhões financiados pelo CNPq e pelo MCT. A nona rede foi criada recentemente, com importante contribuição de empresas privadas, e estuda o Genoma do Eucalipto, com investimento inicial previsto em R$ 8 milhões.

Entre as pesquisas estão doenças de populações pobres, como o mal de Chagas, micose, esquistossomose e leishmaniose; bactérias fixadoras de nitrogênio, de extrema importância para a agricultura; e a praga da “vassoura-de-bruxa”, que dizima plantações de cacau. Ao todo, estiveram reunidos 29 pesquisadores no hotel da Funcamp (Casa do Professor Visitante).

De cabeça – Segundo Gonçalo Amarante Guimarães Pereira, do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp e coordenador do Genoma da Vassoura-de-Bruxa, os estudos de genoma no Brasil se dividem em três fases: a primeira foi o seqüenciamento do código genético da bactéria Xylella fastidiosa, causadora da doença do “amarelinho” na laranja, que serviu para que os pesquisadores aprendessem a fazer a genômica, ganhando experiência na área. Agora, numa segunda fase, com investimentos tanto do MCT como da Fapesp e de outras instituições de pesquisa e agências de fomento, foram direcionados os estudos para genomas espontâneos.

“A próxima etapa é o desenvolvimento de produtos a partir dessas pesquisas. O Brasil entrou de cabeça na era genômica”, comemora Pereira. A reunião de “Brainstorm”, como denominou Pereira, serviu para aprender com a experiência dos outros, e não repetir o que os outros estão fazendo, além de apresentar novas ferramentas e propostas de trabalho integrado de bioinformática. “Não pretendemos reinventar a roda, mas usar as experiências básicas em conjunto”, esclarece.

Capital – Existem dois tipos de estudos de genoma, ou duas abordagens distintas: o genoma estrutural, que investiga os organismos para se conhecer mais profundamente suas propriedades e extrair possíveis benefícios; e o genoma funcional, onde se inicia o mapeamento com vistas a um objetivo pré-definido, como é o caso do combate a doenças e pragas. “A grande vantagem dos genomas regionais espontâneos é que se está explorando organismos em torno dos quais já existe uma massa crítica realmente preocupada com esses organismos, e de onde devem sair produtos de biotecnologia, em uma área na qual o Brasil tem um potencial enorme, mas a quantidade de empresas que realmente atuam em biotecnologia é ínfima, praticamente nula. Temos uma massa crítica enorme, organismos maravilhosos para se fazer biotecnologia, potencial universitário fantástico, mas nada disso é convertido. Precisamos atrair capital”, afirma.

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Avanço no combate à ‘vassoura-de-bruxa’

O estudo do genoma de C. Crinipellis perniciosa (vassoura-de-bruxa) está bastante avançado e contou com fontes de dados de outros genomas como o do câncer. Em quatro meses de trabalho, com quatro grupos organizados, cerca de 60% do genoma já foram seqüenciados em cópia única, com dois mil genes identificados, frente à estimativa de sete a oito mil genes. O projeto entra agora na fase de construção, a partir de alvos extremamente importantes e prováveis de estarem relacionados com a doença. O estudo desse genoma é coordenado por Gonçalo Amarante Guimarães Pereira, da Unicamp.

Pereira cita como exemplos um gene chamado cutinase, relacionado com a celulose, usado para penetrar na planta, e genes sexuais. “Os fungos que não têm sexo são mais difíceis de combater. Naqueles que têm, há possibilidade de produzir estratégias de competição sexual, ou introduzir alguma coisa que o mate. Fazer sexo é sempre uma coisa muito perigosa, até no caso dos fungos”, brinca.

São experiências que já estão indo a campo, após identificação de uma quantidade enorme de genes receptores. “A presença de feromônio (hormônio sexual) leva a crer que ele faz sexo e, se faz, vai explicar uma enorme taxa de recombinação. São esporos no formato de hifa, que envolve o hormônio sexual. Trocam material genético, recombinam e criam novos fungos com novas opções de ataque à planta do cacau”, explica o pesquisador.

Essa é uma das maiores dificuldades no combate ao fungo. Nas plantações contaminadas da Bahia, quando se encontra uma planta que não foi destruída, esta é clonada para reprodução, na tentativa de obter variedades resistentes. Mas depois de um tempo aparece um fungo modificado que contamina as plantas. “É grande a chance de que esses fungos trocam material para obter mais poder de ataque”, deduz Pereira.

Preconceito – O projeto do Genoma da Vassoura-de-Bruxa tem financiamento de R$, 1,2 milhão do Governo da Bahia, R$ 800 mil do CNPq e investimentos indiretos da Fapesp na compra de equipamentos (que já consumiu mais de R$ 1 milhão). Os produtores, no entanto, ainda resistem em financiar o projeto por preconceito contra a pesquisa, que imaginam ter relação com os transgênicos. “Genoma nada tem a ver com transgênico, mas o público não compreende e os movimentos ambientalistas criam uma imagem temerosa”, lamenta Pereira. Um programa como este, com tantos financiamentos diretos e indiretos, reúne de 80 a 100 pesquisadores. Em contrapartida, outros grupos também contribuem com dados e informações, e o seqüenciamento é feito em vários lugares simultaneamente.


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