Grupo decifra a genética do cacau podre

Cientistas brasileiros deram um passo firme para exterminar a vassoura-de-bruxa, fungo que quebrou toda a cultura cacaueira do sul da Bahia nos anos 1990. Eles identificaram os três genes do parasita que causam a necrose do cacau.
“Com esse trabalho encontramos um alvo [genético] fortíssimo para atacar. O apodrecimento dos ramos e dos frutos é o grande problema da doença”, disse à Folha o pesquisador Gonçalo Pereira, 42, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).
Baiano de Salvador, ele acredita tanto nas pesquisas feitas desde o ano 2000 que inclusive comprou uma fazenda em Ilhéus para produzir cacau. “Vendi quase tudo para fazer isso”, comenta o pesquisador.
Após seqüenciar todo o genoma da vassoura-de-bruxa, o grupo de Campinas – que tem a colaboração da UESC (Universidade Estadual de Santa Cruz) e do pesquisador americano Lyndel Meinhardt em seus projetos- elegeu quais seriam os genes mais indicados para continuar o trabalho. Com os candidatos isolados, os resultados começaram a surgir.
“Expressamos os genes em bactéria, purificamos a proteína e “pingamos” em outros vegetais. Eles [os genes] efetivamente necrosam a planta”, revela o pesquisador, que vai publicar o artigo científico sobre a identificação dos genes na revista “Mycological Research”.
“Agora, o próximo passo é conhecer bem as estruturas dessas proteínas para que possamos ter uma chave que entre nessas fechaduras e inative esse processo”, explica.
Apesar do desenvolvimento de um fungicida eficiente ainda ser algo para o futuro, os produtores baianos já conseguem lutar contra a doença com mais chances de vencer.
O entendimento do ciclo natural da vassoura-de-bruxa obtido a partir das pesquisas permitiu que agricultores e cientistas fizessem um bom plano de manejo para suas culturas.

Ciência real
Desde o ano passado, na Fazenda Porto Novo, de propriedade de Pereira e de mais dois sócios, o tempo de fazer a poda da planta já mudou.
“Primeiro, temos que fazer um corte antecipado, entre dezembro e setembro, e não mais entre fevereiro e maio como antes”. Isso, segundo Pereira, para evitar que o rebrotamento do cacau, processo seguido a poda, encontre muitos fungos no campo. “Eles só penetram em tecidos que estão em fase de crescimento”, afirma.
Outra ação importante é adicionar uréia no solo no começo do período das chuvas, nos primeiros dias de abril, quando o fungo muda de fase.
As pesquisas mostraram que no início do ciclo de vida a vassoura-de-bruxa se instala em baixa quantidade nos tecidos vivos do cacau.
Como a planta não percebe o fungo no começo do processo ela trata a área invadida como se fosse um novo broto. “Muitos nutrientes vão para o local”.
Ao perceber que trata-se de um ataque, o vegetal deflagra um processo contrário. “A planta começa a se matar. Isso faz com que sobrem muitos nutrientes para o fungo. É o sinal que o parasita precisava para iniciar a fase de necrose e, ao mesmo tempo, se multiplicar”.
Como o fungo, nessa segunda etapa, não vive em tecidos vivos, a uréia, ou no caso o nitrogênio que vem junto com ela, tem exatamente o papel de enganar a vassoura-de-bruxa.
“Uma vez que a concentração de nutrientes é alta desde o início, o fungo muda de fase antes da hora e não sobrevive”, explica Pereira. “Não tem nada de novo no manejo. A questão está no ciclo. Em fazer as coisas no momento correto”, explica.
Essa forma de manejar o cacau contra o fungo, agora corroborada pela ciência, estava sendo feito na Bahia pelo agricultor Edvaldo Sampaio. Os cientistas ficaram surpresos quando chegaram ao campo e viram que alguém já estava fazendo de forma empírica aquilo que eles haviam descoberto no laboratório ser o ideal.
“O problema agora é a insolvência dos produtores”, explica Pereira. “Isso complica um pouco a retomada do setor”.


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